Todo setembro, o amarelo toma as ruas e as redes. Fachadas iluminadas, fitinhas distribuídas, posts motivacionais compartilhados em massa. A mensagem parece clara: é preciso falar sobre suicídio. Mas depois de quase uma década, os números continuam a subir. Um estudo nacional publicado em 2024 mostrou que a curva de crescimento do suicídio no Brasil não se alterou após a criação da campanha. Em estados como o Ceará, a situação entre jovens de 15 a 29 anos até piorou. A discrepância entre a estética e os resultados abre uma questão desconfortável: será que estamos falando, mas não da forma certa?
Falar pode salvar (ou ferir)
A forma de comunicar é determinante. A ciência descreve dois efeitos opostos. O efeito Werther, observado desde o século XVIII, mostra que narrativas sensacionalistas, detalhamento de métodos e manchetes espetaculosas podem gerar imitação em pessoas vulneráveis. Já o efeito Papageno, inspirado em um personagem da ópera A Flauta Mágica, demonstra que histórias de superação, quando bem contadas, podem proteger, oferecer esperança e reduzir a ideação suicida. Entre esses dois extremos, o Setembro Amarelo precisa se equilibrar. Falar é necessário, mas falar mal pode custar vidas.
Entre lives e likes
Nas redes sociais, influenciadoras frequentemente abrem caixinhas para que seguidores desabafem sobre saúde mental. A empatia é legítima, mas a falta de preparo técnico coloca em risco quem escreve do outro lado da tela. Receber um relato de ideação suicida exige conhecimento, rede de apoio e protocolos claros, não apenas boa vontade. Sem esses elementos, o que poderia ser acolhimento vira um espaço frágil, incapaz de oferecer segurança a quem precisa. O mesmo vale para a mídia tradicional, que muitas vezes tropeça em um tom espetacularizado. Mostrar fotos, divulgar cartas ou detalhar métodos não só desrespeita a dor como pode reforçar o risco do contágio. É por isso que diretrizes da OMS e do Conselho Federal de Psicologia insistem: não se deve romantizar, moralizar nem simplificar. O modo como se fala é tão importante quanto o ato de falar.
A crítica da superficialidade
Se há méritos no Setembro Amarelo, afinal, o tema nunca foi tão discutido, também há fragilidades evidentes. Uma revisão publicada em 2024 chamou atenção para a banalização da campanha: virou ritual anual de fitas, prédios iluminados e posts genéricos, mas sem continuidade nem profundidade. Para parte dos jovens, essa repetição soa mais como publicidade do que como prevenção. Sem ligação clara com serviços de saúde mental, sem investimento em políticas públicas, sem informação objetiva sobre onde buscar ajuda, o gesto simbólico corre o risco de se esvaziar.
O que poderia mudar
A experiência internacional mostra que campanhas midiáticas isoladas raramente derrubam estatísticas. No Canadá e nos Estados Unidos, algumas iniciativas chegaram a aumentar chamadas para linhas de ajuda, mas nenhuma conseguiu reduzir as taxas de suicídio. O que realmente faz diferença, apontam os estudos, é quando a campanha está inserida em uma estratégia maior: fortalecimento da rede de saúde, treinamento de profissionais, combate ao estigma de forma consistente, comunicação responsável. No Brasil, o desafio é transformar a visibilidade do Setembro Amarelo em ação permanente, que vá além do calendário.
Entre a luz e a sombra
Setembro Amarelo não deve ser reduzido a um erro, mas também não pode ser tratado como solução. Ele abriu espaço para conversas antes silenciadas, mas deixou evidente que visibilidade não é sinônimo de impacto real. A questão, portanto, não é se devemos manter ou acabar com a campanha, e sim como fazê-la evoluir. Enquanto ficar restrita à cor e ao marketing, seguirá iluminando sem proteger. Para se tornar mais do que símbolo, precisa assumir o compromisso de oferecer caminhos concretos, preparar quem acolhe, respeitar quem sofre e, sobretudo, salvar vidas; porque pintar o mês de amarelo nunca será o bastante.
Redação PNB, por Ally Vianna



