
O título deste artigo faz referência a uma expressão que tem sido muito usada de 2014 para cá. Todo mundo dizia que os militantes de esquerda precisavam sair do facebook, parar de fazer textão e ir para a rua. O sair era fazer algo mais que chamasse a atenção das pessoas sobre o que acontecia no país, com o ambiente hostil vindo da direita e extrema direita, que boa parte da esquerda acabou incorporando, e isso causou uma tontura em todos nós. Petra Costa fez diferente. Preservou o estômago, manteve a concentração, tomou vacinas para não se contaminar e produziu um documentário sensacional, Democracia em Vertigem, que, certamente, vai concorrer ao Oscar e outros festivais de cinema pelo mundo.
Ainda em 2014, quando eu morava no Rio de Janeiro, numa visita ao meu apartamento, o professor e amigo Josemar Pinzoh me convidou para escrevermos um livro, ou fazer algo para falar daquilo que acontecia no país. Mas nunca conseguimos produzir algo concreto que refletisse o atual momento político. Assistindo ao documentário, ficava pensando em quanto tempo perdi com contendas em redes sociais, tentando argumentar com todo um conhecimento adquirido, através de leituras, conversas e vivências e receber uma resposta ignorante e cheia de blefes de conhecimento, como as citações a Gramsci e Marx, ou até mesmo as de Paulo Freire, para ficar aqui no Brasil.
Petra Costa não alisa. Não sobrou pra ninguém. Se um antipetista diz que aquela obra de arte é um panfleto partidário, esta pessoa deve sofrer de falta de cognição. Só consigo pensar desta forma. Talvez considere isto pelo início do filme, quando demonstra toda a emocionante trajetória de Lula e da esquerda Brasileira para chegar ao poder.
O documentário é sensacional! Um dos fatos que mais me chamou a atenção é quando, após o golpe, entrevista uma auxiliar de limpeza do Palácio do Planalto e ela responde, cheia de contradições na sua fala, sobre o que é Democracia. Ao tempo que diz que a mudança de presidente através do impeachment não foi democracia, acha que Dilma fez alguma coisa, mas não evolui na argumentação. Diz e desdiz. A gente vê muito disso em redes sociais.
Ainda não entendi o porquê da diretora ter escolhido não colocar a morte do Ministro do STF, Teori Zavaski no vídeo. Ele tinha decidido, após análises dos autos, assoberbados de estranhezas jurídicas, que o então juiz de primeira instância da 13ª Vara Federal de Curitiba, Sergio Moro, enviasse os processos de Lula para ele. Isso causou irritação em muita gente, talvez até no juiz e procuradores originários do processo. O Ministro Teori morreu num desastre aéreo. Talvez num erro provocado.
E os processos de Lula retornaram a Moro, e ele acabou julgando Lula numa velocidade processual incomum no Brasil, e até mesmo nos processos da Lava Jato. E Lula, favorito nas eleições presidenciais de 2018, foi preso e condenado, com a sua condenação confirmada pelo Tribunal Regional Federal da 4ª região, com a mesma rapidez fora do normal nos ritos judiciais. E a sua candidatura foi impedida, referendada pelo Ministro do STF, Luis Roberto Barroso. Tudo muito estranho.
Como parte da grande imprensa brasileira não fez o seu papel, Petra Costa está denunciando o golpe sofrido por Dilma, e pela democracia, ao mundo. Agora, com as última notícias de condutas nada louváveis e criminosas do atual Ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro e dos Procuradores da Lava jato, mais uma vez a grande imprensa pestanejou para entrar na parceria com o site/agência de notícias The Intercept, que tem o jornalista Glenn Grennwald, vencedor do pulitzer, maior prêmio do jornalismo mundial, pela reportagem do Caso Snowden, como um coordenador das investigações jornalísticas . Mas boa parte dela já entrou, pela credibilidade das informações, comparativos com atos subseqüentes e também pela fragilidade da acusação contra Lula.
Parabéns a Petra Costa! Sua “saída” do facebook nos encoraja a usar a arte ou o jornalismo para denunciar a insensatez do tempo que vivemos. Tempo de usurpação de direitos sociais, políticos e de predomínio do jogo das elites econômicas e de parte do judiciário país.
Por Raphael Leal é jornalista. Atua em Assessoria de Imprensa e Marketing Político. Também já trabalhou como repórter do Canal Futura, dentre outras atividades na área da educação e da comunicação




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