O calor de fim de tarde aperta nas margens do São Francisco. A cena é comum: pessoas que cruzam a ponte indo e vindo do trabalho, mães de mãos dadas com as crianças, um estudante com fone de ouvido. Invisível na paisagem, porém, há outro tipo de aperto: uma fadiga que não se dissolve com água gelada. É a língua seca da angústia. Nos dois lados do rio, Juazeiro e Petrolina, ela tem batido à porta de consultórios e serviços de saúde mental com uma frequência inédita.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, 5,8% dos brasileiros vivem com depressão.
Em 2024, o Ministério da Previdência Social registrou 472 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais, um aumento de 68% em relação a 2023. A ansiedade foi a principal causa, seguida da depressão. São números que impressionam, mas também levantam uma questão: será que adoecemos mais ou será que, finalmente, aprendemos a dar nome ao sofrimento?
A engrenagem do cansaço
O Global Mind Project mostrou que 41% dos jovens entre 18 e 34 anos vivem em sofrimento funcional debilitante. Psicólogos em Juazeiro e Petrolina confirmam a tendência: adolescentes chegam aos serviços marcados por insônia, crises de ansiedade e automutilação. O que antes era escondido agora se apresenta em prontuários, em diagnósticos, em estatísticas. O tabu começa a ceder, mas o peso coletivo segue em alta.
O que está acontecendo?
Vivemos em um tempo acelerado, em que tudo precisa ser imediato. As redes sociais nos treinam para a comparação constante, para o medo de estar de fora. O presente se tornou efêmero, feito de notificações e de uma pressa que não deixa sedimentar. O passado parece irrelevante, o futuro incerto. Só sobra um agora fragmentado.
Esse agora é regido por uma lógica neoliberal que transforma cada gesto em performance.
Trabalhar virou sinônimo de existir. Descansar se tornou culpa. A subjetividade virou capital: é preciso ser produtivo, reinventar-se, expor-se, estar disponível sempre. O que não rende parece não ter valor. E, sob esse imperativo, a angústia encontra terreno fértil.
E aqui entra a crítica: não se trata apenas de diagnósticos médicos. Trata-se do modo como vivemos. O neoliberalismo não é apenas um modelo econômico é uma lógica que transforma cada pessoa em “empreendedor de si mesmo”. A vida vira competição. O descanso vira culpa.
O fracasso vira responsabilidade individual, nunca estrutural. As redes sociais ampliam essa engrenagem: a todo instante somos lembrados de que estamos atrasados, de que deveríamos ser mais. O resultado não poderia ser outro: ansiedade como regra, depressão como sintoma de época.
Dois lados do rio, a mesma correnteza
Em Juazeiro, a Secretaria de Saúde informou que mais de 4.300 pessoas estavam em acompanhamento nos CAPS em 2022. Em Petrolina, só o CAPS II registrava 2.100 pacientes ativos no mesmo ano, e em 2024 a rede municipal divulgou ter realizado mais de 50 mil atendimentos.
Os números são altos, mas não dão conta de todos. Muitos seguem fora das estatísticas, adoecendo em silêncio. A procura maior pode ser lida como alerta, mas também como mudança cultural: há menos medo de pedir ajuda. O que antes era dor escondida, agora aparece nas filas de espera e nos grupos terapêuticos. Nos dois lados do rio, a correnteza é a mesma: o sofrimento se tornou visível.
Mas essa invisibilidade ainda presente, talvez seja o aspecto mais cruel da crise. Ela não explode em epidemia viral, mas se acumula nos corpos, nas casas, nas famílias. Cada fila de espera, cada sala improvisada, cada CAPS saturado é também a prova de que existe um sofrimento coletivo que não encontrou espaço para se narrar por completo.
O sociólogo André Silva, pesquisador da sociologia da saúde e das emoções coletivas, observa: “O que chama atenção não é apenas o crescimento dos números, mas a forma como passamos a nomear a dor. Estados antes descritos no cotidiano como ‘nervoso’, ‘sem forças’, ‘abatimento’ agora aparecem traduzidos em categorias clínicas. Esse deslocamento é importante porque legitima sofrimentos antes silenciados. Mas junto do reconhecimento surge também o risco da banalização: termos como depressão ou ansiedade entram no vocabulário comum e, ao mesmo tempo em que ampliam a visibilidade, podem esvaziar a gravidade da experiência. Entre a legitimidade e a banalização, perde-se muitas vezes a dimensão humana. Cada porcentagem representa histórias singulares, lares atravessados por silêncios e vínculos fragilizados que a linguagem técnica, sozinha, não consegue narrar.”
Entre a estatística e o desamparo
A Fiocruz Bahia, em parceria com Harvard, mostrou que o suicídio entre jovens de 10 a 24 anos cresce 6% ao ano no Brasil, e as notificações de autolesões aumentaram 29% ao ano nesse grupo. O Ministério da Saúde registrou 16.439 mortes por suicídio em 2022. São números que gelam, mas que só contam uma parte da história.
Na psicanálise, se fala em angústia sem objeto, um mal-estar difuso, que não se prende a uma causa única, mas se infiltra em tudo. O sujeito não sofre apenas de algo externo, sofre de si, do imperativo de render, da cobrança de não falhar. O neoliberalismo transformou a vida numa maratona sem linha de chegada. As redes digitais garantem que a corrida nunca pare.
Quando a cidade silencia
À noite, as luzes da ponte brilham sobre o São Francisco, refletindo na água calma. Juazeiro e Petrolina parecem repousar. Mas atrás de cada janela há histórias não ditas: o trabalhador que não aguenta mais a pressão, a mãe que chora em silêncio, o adolescente que não consegue dormir.
A crise é silenciosa porque não grita. Ela suspira.
E diante desse cenário, as perguntas persistem: os números crescem porque estamos adoecendo mais ou porque, finalmente, começamos a falar? É a tecnologia que nos acelera ou o sistema que exige que estejamos sempre disponíveis? Por que nos sentimos sempre em falta, sempre devendo, sempre cansados?
Talvez seja tudo isso. Talvez estejamos, enfim, aprendendo a enxergar o que antes ficava escondido. Seja como for, a resposta não pode ser o silêncio. Porque se existe uma saída, ela começa na escuta. Escutar com políticas públicas, nas empresas, nas escolas, nas famílias.
Escutar com tempo, com cuidado, com presença. Escutar o que hoje só se manifesta em silêncio.
Redação PNB, por Ally Vianna
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