
Morando em Pequim a um ano e oito meses, a geóloga juazeirense Edilene Pereira Gomes, relatou ao PNB, com exclusividade, como foram os dias inicias do Coronavírus na China, a alteração na rotina dos moradores, a situação atual do país e, com a esperança de quem vive no primeiro epicentro da pandemia no mundo, e que está vencendo o Covid 19, chamou atenção para a importância da quarenta: “Que cada um faça a sua parte e fique em casa”, alertou a geóloga, que atua na área de mineração e governança, formada pela UFBa, com mestrado pela Unicamp e Doutora pela Université d’Orsay.
PNB: Qual é a situação hoje na China?
Edilene: Depois de semanas tensas, à situação está bem melhor. A crise epidêmica do COVID foi controlada. Aqui em Pequim temos 2 semanas com um novo caso de contaminação. Em Wuhan, cidade situada na Província de Hubei, onde deu-se o início da epidemia e o centro da crise sanitária durante estes meses (janeiro (meio), fevereiro e março) não tem novo caso há vários dias. Com a crise tendo se deslocado para Europa, a China é hoje um país quase “safe”. Deve-se dizer com um certo cuidado, visto que, tem-se constatado novos casos de contaminação trazidos para China por pessoas que estavam em outros países. Estes são chineses que vivem fora e estrangeiros expatriados que voltam para trabalhar visto que a atividade econômica voltou a funcionar aqui. O governo chinês implementou centros de avaliação de saúde próximos do aeroportos para receber estes passageiros ( vai buscar dentro dos aviões) e em seguida envia cada pessoa para hotéis, onde se faz uma quarentena obrigatória. Não é um momento simples, mas acho normal, visto todo o esforço feito pelo país para parar à epidemia. Embora exista uma sensação de alívio na população, esta sensação é muito contida, visto que, se não tiver cuidado a epidemia pode retornar.
PNB: Como se deu a chegada do Coronavírus por aí?
Edilene: A chegada foi um susto. No início de janeiro, li algum artigo falando de um aumento de pneumonia em Pequim, mas falava de transmissão por animais domésticos. Como temos um gato, passamos a ter muito cuidado para que o mesmo não entrasse nos quartos. Meu marido e eu estávamos de férias (feriado do ano novo chinês) no Ouzebequistão quando a crise estourou. Voltamos no meio de nossa viagem, pois tinha nossa filha em Pequim. Chegamos em Pequim as ruas já estavam desertas. Ficamos 6 semanas de contingência social. Saíamos somente para fazer compras nos supermercados e umas duas vezes na semana ia andar em um parque que tem perto de casa ( era uma maneira de manter minha saúde mental). Foi impactante ver esta cidade sempre tão vibrante (22 milhões de habitantes), completamente deserta! Era quase surreal. Na verdade, a crise epidêmica começou a surtir efeito com 4 semanas, mas como muitos habitantes de Pequim tinham viajado para o interior, para passar o ano novo com a família, estes deveriam retornar para Pequim e o prefeito ficava com receio de um aumento de contaminação. Desta maneira, o comércio, restaurantes, escritórios e indústrias ficaram fechados mais um tempo. Quando o comércio voltou abrir, levou-se uma semana para que as pessoas voltassem às compras e etc. Devo dizer, que o único lugar da China que a contingência social foi obrigatória foi a Província de Hubei. Em Pequim, por exemplo, esta não foi obrigatória, mas foi estimulada. As repartições públicas não vitais foram fechadas, restaurante etc. E as pessoas seguiram a orientação do governo, aderindo a orientação de contingência social, porque se sentiram em perigo de vida, viram o país em dificuldade, e resolveram assumir o que o governo estava sugerindo, de ficar em suas casas. Tudo isso é facilitado, aqui na china, por conta do regime comunista. Tudo tem sua vantagem e desvantagem, no comunismo, nas democracias. Mas um traço cultural do chinês, é que o cidadão se sente com uma peça de uma grande engrenagem que é o pais. E o que eles podem fazer para que esta máquina funcione, eles o farão.
PNB: O que você diria aos juazeirenses, aos moradores da região do São Francisco, neste momento de muita apreensão aqui no Brasil?
Edilene: Eu gostaria de passar para as pessoas aí no Brasil, e em especial para Juazeiro, onde moram minha família e muitos amigos, que este é um momento preocupante, uma crise sanitária, cujo perigo maior está na incapacidade da estrutura dos hospitais de poder responder a quantidade de pessoas doentes. Neste sentido, quanto mais prolongar esta crise, mais se “empurra” a doença , dando maior elasticidade de tempo para que os hospitais se estruturem para atender aos doentes. Cada um tem que fazer sua parte. Falam de crise política no Brasil, mas não é hora de tratar de crise política. O momento é muito sério. Esse vírus é transportado através das pessoas, e se elas não se locomoverem, para o mecanismo da disseminação. Esta é a maneira de zerarmos a contaminação. Cada um deve ficar na sua casa. Sei que todos têm seus problemas profissionais, econômicos, mas agora o mais importante é a vida, é a saúde. Sem saúde não se realiza nada. Fique em casa, alimente-se bem, não fique somente atrás de muita informação, a toda hora, faça coisas que gosta, ouça música, cante, dance … Eu aqui, no início da crise, dançava no começo da manhã, pelo bem da minha saúde mental. Não receba visitas, diga que não recebe visitas, se cada um fizer isso, o Brasil não terá tanto prejuízo humano e esta crise vai passar mais rápido. Mesmo sabendo que o Brasil não está preparado para a “coisa”, minha mensagem é que façam a quarentena, porque isso depende de vocês, de cada um de vocês, o resto não. Espero em Deus e nas pessoas!
*Entrevista realizada na tarde de sábado, 21/03
Da Redação por Sibelle Fonseca




Excelente entrevista.
Acredito que este tipo de informação é aquela da qual precisamos. A mensagem é clara e simples: ficar em casa.
Nunca antes a saúde e o bem estar dos que amamos – e mesmo daqueles que não conhecemos – depende de tão pouco: ficar em casa. Este sacrifício é simples, comparado a todo sofrimento que temos visto.
Devemos saber também que a crise financeira que está por vir exigirá outro tipo de sacrifício: o de de gastos supérfluos em prol de auxílio econômico aos que necessitarem. E serão muitos.
Então, gostaria de deixar outra palavra em destaque: doar.
Acredito que não é à toa que tão recentemente a Irmã Dulce foi canonizada.
Católicos ou não, que nossos corações sintam a mensagem clara passada por ela. Ações humanitárias serão necessárias…assistência aos desfavorecidos será ainda mais vital para que não vejamos nosso país – já tão à deriva – sofrer ainda mais devido ao egoísmo que guardamos tão dissimuladamente em nosso interior.
Parabéns pela reportagem. Muito oportuna e esclarecedora.
Obrigado Edilene, minha colega geóloga da UFBA. Estou em LondrinaPR e aqui estamos confinados ao máximo.
Espero que este pesadelo passe logo sem tantas mortes.
Com bastante clareza e sem gerar pânico a brasileira e doutora está de parabéns. São iniciativas como esta, com a realidade vivenciada neste momento e com informações precisas que precisamos.
Não se pontuou tecnologias aplicadas, falou-se de Isolamento Social.
Que essa reportagem possa abranger o máximo de pessoas e que todos possam compreender que tudo isto vai passar. Depende de nós!