“Os fins justificam os meios: uma reflexão pretérita”, por João Gilberto Guimarães Sobrinho

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Maquiavel nunca disse literalmente que os fins justificam os meios, entretanto ainda hoje usamos o termo “maquiavélico” para denominar um plano ou pessoa que articula para o mal, o fato é que o diplomata italiano moldou ou ajudou a moldar as bases do pensamento político ocidental. O ponto interessante é que o maquiavelismo não é o mal encarnado, trata-se na verdade de uma abordagem pragmática da ação política, que prioriza antes de tudo a eficácia em detrimento da moral.

Embora seja um grande admirador do filósofo e do homem Nicolau, não vim advogar por sua efígie, mas acho de bom tom explicar o contexto da produção de sua obra mais conhecida. “O Príncipe” foi escrito por Nicolau Maquiavel em 1513, durante um período de turbulência política na Itália. Maquiavel havia servido como diplomata e funcionário público na República Florentina, mas perdeu sua posição após a restauração dos Médici ao poder em Florença.

A península italiana estava dividida em vários estados independentes (como Florença, Veneza, Milão, Nápoles e os Estados Papais), frequentemente em conflito entre si. Além disso, havia constantes invasões de potências estrangeiras, como França e Espanha, Maquiavel escreveu “O Príncipe” em um momento em que a política italiana exigia líderes capazes de unificar e proteger os estados italianos. Ele buscava demonstrar como um governante deveria agir para alcançar e manter o poder em meio ao caos.

Há quem diga que o seu ideal de príncipe foi o sanguinário Césare Bórgia, príncipe, cardeal, nobre e principalmente filho de Rodrigo Bórgia, que por meios sórdidos, ascendeu ao cargo de papa em 1492 (não por acaso, ano do descobrimento da América), voltando a Nicolau, quando os Médici retomaram Florença, Maquiavel foi acusado de conspiração contra eles. Em 1513, ele foi preso, interrogado e submetido à tortura, sob suspeita de envolvimento em um complô para derrubar os Médici. No entanto, ele foi libertado após algumas semanas, provavelmente por falta de provas ou devido a uma anistia concedida pela família Médici. Uma vez libertado, Maquiavel foi exilado de Florença para sua propriedade em Sant’Andrea, onde escreveu “O Príncipe”. A obra foi dedicada a Lorenzo de Médici (o Jovem), com o objetivo de reconquistar o favor da família Médici e talvez voltar ao serviço político.

Maquiavel escreveu o livro como uma espécie de tratado político prático, oferecendo conselhos sobre como conquistar e manter o poder. Ele defendia uma abordagem pragmática, que muitas vezes contrastava com os ideais morais da época. A obra introduziu conceitos revolucionários, como a separação entre política e moralidade, e permanece um marco no pensamento político moderno.

Deixando o passado no passado, O contexto de “O Príncipe”, de Maquiavel, pode ser relacionado à política moderna de várias maneiras, especialmente no que diz respeito à busca pelo poder, à manutenção da autoridade e às estratégias pragmáticas de liderança. Ainda hoje líderes frequentemente enfrentam dilemas éticos em que precisam escolher entre o que é moralmente correto e o que é politicamente eficaz, se utilizam de  estratégias que nem sempre refletem ideais éticos, mas que garantem resultados, como alianças controversas, concessões e decisões impopulares que abrem margem para diversas interpretações, os políticos frequentemente cultivam uma imagem pública que pode não refletir completamente suas ações nos bastidores, o que se observa é que as campanhas eleitorais, o marketing político e controle de narrativa nas redes sociais exemplificam como líderes constroem “imagens” para conquistar e manter o apelo e o  apoio  popular.

Apesar das controvérsias que cercam a figura de Maquiavel, sua obra continua a oferecer insights profundos sobre as complexidades do poder e da liderança. Em “O Príncipe”, ele descreve dois conceitos fundamentais: Fortuna, representando a sorte e as circunstâncias imprevisíveis, e Virtù, simbolizando a habilidade, a astúcia e a capacidade de adaptação do líder para enfrentar os desafios impostos pelo destino. Esses conceitos, embora concebidos no Renascimento, são profundamente aplicáveis à política moderna.

Hoje, líderes e governantes enfrentam “fortunas” implacáveis: crises econômicas, pandemias, conflitos globais e mudanças climáticas são exemplos de forças externas que moldam os rumos da humanidade. No entanto, a verdadeira virtude política reside na capacidade de responder a esses desafios com coragem, inovação e resiliência. Maquiavel nos ensina que, mesmo diante da adversidade, é possível moldar o futuro, contornar os obstáculos e construir caminhos mais justos e prósperos.

Vivemos em um tempo que exige líderes virtuosos — não no sentido de perfeição moral, mas de pragmatismo ético, de visão estratégica que sirva ao bem comum. A história nos mostra que não basta esperar pela sorte; é preciso agir com determinação, aprender com os erros e persistir na busca por soluções que beneficiem o maior número de pessoas.

Assim como Maquiavel sonhava com um príncipe que unificasse e fortalecesse a Itália, podemos aspirar a líderes que unam sociedades divididas, combatam desigualdades e tracem rumos sustentáveis para as gerações futuras. É possível imaginar uma política em que fortuna e virtú trabalhem juntas: onde a sorte sorria àqueles que se preparam e agem com inteligência, e onde as circunstâncias, por mais difíceis que sejam, sejam enfrentadas com coragem e compromisso.

O legado de Maquiavel nos convida a refletir, mas também a agir. Não se trata de abandonar ideais, mas de adaptá-los ao mundo real, lembrando que a política, em última instância, é a arte de transformar a realidade.

Que tenhamos a virtù para enfrentar nossas fortunas e construir um futuro onde a política sirva, acima de tudo, à dignidade e à esperança da humanidade.

João Gilberto Guimarães Sobrinho é juazeirense, produtor cultural, cientista social formado pela Universidade Federal do Vale do São Francisco, Pós graduando em Políticas Públicas e direitos sociais, pesquisador das Políticas Públicas de Cultura.

 

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