Em entrevista, pai do atirador de Aracruz (ES) diz que espera punição, pede perdão e revela reação do filho: “Tranquilidade gelada”

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Em entrevista ao Estadão, o pai do atirador de Aracruz (ES), dono das armas que foram utilizadas no ataque que deixou 4 pessoas mortas e 12 feridos na última sexta-feira (25), declarou que errou ao descuidar das armas e que não deseja a impunidade.

“Eu já tenho noção que vou responder por omissão de cautela, que é o crime quando você se omite dos cuidados da arma sob sua cautela e alguém utiliza de forma indevida. Foi o que aconteceu com a arma da corporação que estava comigo. Eu sei que vou responder, mas é como te falei: não quero nenhum tipo de impunidade. Foi um erro meu, que eu responda. Não quero livrar nem minha cara não. Vou ser punido, sim. Não vou ficar inventando defesa mirabolante com advogado não. Assim como quero que meu filho seja punido dentro dos rigores da lei” disse o pai.

O homem, que não teve sua identidade revelada, revelou ainda que o filho foi criado com “todo amor e carinho” e pediu desculpas as vítimas da tragédia.

“Meu mais profundo sentimento de pesar. Sei que a tragédia que ceifou várias vidas foi cometida por meu filho, um filho criado com todo amor e carinho. Mas não consigo entender o que o levou a cometer esse atentado. Se eu pudesse, pediria para cada família o perdão para meu filho, apesar de saber que diante de tamanha dor isso é algo impossível. Gostaria de poder pedir o perdão e dar minha explicação para cada parente das vítimas, mesmo que fosse em vão”, disse o homem.

O pai do atirador contou que ele e a esposa estão escondidos desde que aconteceu o ataque, e relatou como soube da ação criminosa e brutal do filho.

“Eu e minha esposa estávamos na rua resolvendo algumas coisas. Nós tomamos conhecimento através de um grupo do WhatsApp da comunidade aqui. Sou o presidente da associação de moradores, pra você ver que não sou nazista como estão pintando aí nas redes sociais. Minha esposa estava por acaso verificando as mensagens no grupo. Ela viu uma postagem referente a um atentado, a uma violência que aconteceu. A gente ligou para o X. porque ficamos preocupados. Tínhamos deixado ele em casa e a gente estava no centro da cidade. Aí a gente ligou para ele avisando e perguntando se estavam trancados os portões. Falamos para deixar o cachorro solto no quintal porque a princípio tinha ocorrido um tiroteio. E era para ele ficar trancado dentro de casa e soltar o cachorro, não abrir as portas para ninguém”, contou ao jornal.

O pai seguiu contando sobre a reação do atirador quando atendeu a ligação.

“Chegamos em casa uns 30 minutos depois disso e nos deparamos com ele. Ele estava bem tranquilo, parecia que nada tinha acontecido. Eu perguntei se tinha aparecido alguém ali, se tinha visto alguma coisa de violência. Ele falou que não. A gente tinha que sair para ir a um lugar próximo, chamado Mar Azul, a uns 5 km de Coqueiral. Era mais ou menos 11 horas e falei: ‘Vamos almoçar logo para a gente ir lá, resolver o que temos que resolver e voltar para casa’. Nós almoçamos, eu, minha esposa e ele. Ele almoçou tranquilamente. Quando a gente chegou em Mar Azul, depois de uns cinco ou dez minutos, uma viatura da Polícia Militar chegou e conversou comigo. Falou que já tinha todas as suspeitas que seria o X. devido ao carro que ele utilizou. Era um outro carro meu, que eu tinha deixado na garagem. E quando eu cheguei em casa o carro estava na garagem, tudo certinho”, relatou.

Ele falou que o filho chegou a negar o crime, mas logo confessou e a mãe desmaiou depois disso. “Ele estava super tranquilo, não demonstrou suspeitas, não demonstrou nada. […] Era uma tranquilidade gelada”, afirmou.

Sobre o histórico de bullying que o filho teria sofrido, conforme declarou o adolescente, o pai afirmou que não acredita nesta versão.

“Ele falou que foi por causa do bullying que ele sofreu dois anos atrás mais ou menos. Mas a gente que tem um pouco de experiência nessa área de segurança sabe muito bem que ele está mentindo. Ele tá querendo cobrir alguma outra coisa maior. Eu acredito que ele esteja querendo encobrir as pessoas que o manipularam. Eu ainda não consegui entender a motivação para ir na escola e fazer aquela brutalidade. O bullying não justificaria. O delegado ainda perguntou se ele tinha alguns amigos nisso. Ele falou que foi ele sozinho. Mas a gente não acredita” falou.

O PM revelou ainda que o adolescente gostava de conteúdos que tratavam da segunda guerra mundial e que o filho tinha mudado de comportamento nos últimos dois anos.

“Não foi nada provado (a situação de bullying), mas ele relatou isso. Foi antes da pandemia mais ou menos. Depois disso a gente percebeu sim uma transformação comportamental nele. A gente viu que ele ficou uma pessoa mais introvertida e ele era bastante extrovertido. Era muito risonho, conversador, e ele se fechou, a partir do final de 2019. Ele se isolou socialmente dos colegas. Devido a esse isolamento, começou a procurar interação nos jogos. A rede social que ele mais usava era o YouTube, com os vídeos. Ele gostava muito do tema da Segunda Guerra Mundial. Não sei como aflorou esse gosto nele. Era muito fissurado em História, em Sociologia, alguma coisa de Filosofia. Apesar da idade precoce, aflorou esse gosto nele”, contou na entrevista.

No dia do ataque, o atirador usava na roupa uma suástica, símbolo nazista. Em sua página de uma rede social, o pai já havia publicado uma foto do livro “Mein Kampf”, escrito por Adolf Hitler. Sobre esta relação com ideias nazistas, o PM confessou que emprestou o livro para o filho ler, embora tenha achado o conteúdo “bobo, idiota”.

“Eu sou um estudante, um pesquisador da mente humana. Tenho a minha formação em psicanálise. Conduzo esses projetos sociais e gosto muito de estar entendendo um pouco da mente de alguns grandes personagens da História do mundo. Eu tinha interesse em entender a mente do Hitler. Até comecei o livro, mas nem concluí. Parei para ler um outro que eu achei mais importante. Inclusive, não gostei do livro. Achei que ele ia falar mais das ideias dele, mas estava fazendo uma narrativa histórica de quando ele começou o movimento de revolta na Alemanha. Então eu achei até um livro bobo, idiota”, disse.

Redação PNB/com informações Estadão

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