Dois anos de morte do jovem Diogo Lira: “Tomaram o caiaque e o colete. Foi um crime, um crime bárbaro”, desabafa a mãe

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(foto: arquivo pessoal)

Em 2020 o jovem Diogo Lira chegaria a maioridade e seu aniversário de 18 anos era esperado com muita expectativa por sua mãe, Simone Lira, que tinha o filho como seu braço direito. Diogo era o mais velho dos três filhos de Simone e já ajudava a mãe no orçamento doméstico fazendo pequenos “bicos”. Ele estudava o nono ano e já querendo trabalhar, espalhou currículos em diversas lojas, na tentativa de entrar no mercado de trabalho.

“Quando ele foi chamado para assumir uma vaga em um estabelecimento comercial, já não estava mais aqui”, contou a mãe ao PNB.

Há dois anos, no dia 7 de setembro de 2018, Diogo saiu de casa para passear de caiaque no Rio São Francisco, com amigos, e não voltou mais para casa. Aos 16 anos, o jovem morreu afogado, nas proximidades da Orla II, de Juazeiro.

Diogo e mais dois amigos alugaram um caiaque e decidiram atravessar o rio em direção à Ilha do Fogo. Na volta, ainda no meio do rio, segundo contaram testemunhas, a embarcação chegou a virar duas vezes, o que teria chamado atenção do dono da empresa locadora, que teria mandado um funcionário em outra embarcação para alcançar os jovens e tomar o caiaque e também o colete salva-vidas, de acordo com testemunhas.

Segundo um amigo de Diogo, que estava no momento do afogamento, o funcionário estava irritado com o excesso de passageiros e pelo tempo limite já excedido, e obrigou que ele e Diogo entregassem os coletes e descessem dos caiaques. O amigo conseguiu se salvar nadando até a margem do rio. Diogo, que não tinha costume de nadar,, gritou por socorro, mas não teve a mesma sorte e morreu há metros da beira do rio.

Um dia trágico para Simone, para os irmãos e amigos de Diogo, que revoltados com as circunstâncias do afogamento, realizaram alguns protestos pedindo justiça, sem êxito.

“Meu filho não morreu afogado, meu filho foi morto pela irresponsabilidade e malvadeza de quem tomou o colete que salvaria sua vida, de quem o deixou a deriva no meio do rio, sem querer saber se ele sabia nadar ou não. Tomaram o caiaque e o colete. Foi um crime, um crime bárbaro”, desabafou a mãe.

Traumatizada, Simone Lira conta que há dois anos, os dias de 7 de setembro são de muita dor, tristeza e também de revolta. O caso está impune. A empresa Caiaques do Vale, que alugou a embarcação, continua funcionando. Aliás, nem no dia da tragédia os proprietários fecharam as portas.

“Eu já perdi a esperança de que a justiça seja feita. Se nossa família tivesse dinheiro seria diferente e esse crime não estaria esquecido assim. Eu perdi meu filho, minha vida acabou naquele sete de setembro. Me dizem que com o tempo eu vou esquecer essa tragédia, mas é como se fosse ontem. Adoeci e me sinto sem forças. Mas a vida de quem fez uma perversidade dessa continuou como se nada tivesse acontecido”, disse Simone.

Muito abatida, ela relembra momentos com o filho e fala dos seus sonhos.

“Ele era um menino maduro para a pouca idade, muito responsável, mas também alegre e brincalhão. Era quem resolvia as coisas de casa para mim e todo dinheiro que ganhava fazendo bicos trazia pra casa para ajudar nas despesas. Ele era tudo pra mim, se preocupava comigo. Meu filho era obediente, calmo, querido pelos vizinhos e sonhava em se formar, trabalhar e ser alguém na vida”, lembrou a mãe.

Crime doloso

No dia 22 de maio de 2019, foi realizada, no Fórum de Juazeiro, uma audiência de instrução e julgamento de Eduardo Jorge Meireles e Ramos Neto Costa, apontados como responsáveis pela morte de Diogo Lira. O caso foi considerado pelo Ministério Público da Bahia (MP-BA) como crime doloso (com intenção de matar), duplamente qualificado.

De acordo com o promotor de Justiça da Bahia, Raimundo Moinhos, o caso foi por motivo fútil e impossibilitou a defesa da vítima. Ele considerou que há indícios que Eduardo Jorge Meireles, proprietário da Caiaques do Vale, e Ramos Neto Costa, funcionário, assumiram o risco contra a vida de Diogo.

Durante a audiência, quatro testemunhas foram ouvidas pelo Juiz de Direito Roberto Paranhos Nascimento, da Vara do Júri e Execuções Penais da Comarca de Juazeiro. Uma nova audiência pública estava marcada para o dia 19 de julho, mas não aconteceu devido a suspensão das atividades da Justiça, em decorrência da pandemia do novo coronavírus.

Hoje (10), a Vara do Júri e Execuções Penais  informou que os acusados Eduardo Jorge Meireles da Cunha e Ramon Neto Costa foram pronunciados em 05/12/2019, todavia, em razão do RESE apresentado pela defesa, os autos se encontram pendentes de julgamento do recurso no Tribunal.

Da Redação

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